segunda-feira, 13 de abril de 2009

"O Actor"

"O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça de búfalo, de veado, de rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente como o actor.
O actor acende os pés e as mãos. Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados. Bocado estrela. Bocado janela para fora. Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado. O que rutila, o que arde destacadamente na noite, é o actor, com uma voz pura, monotonamente batida pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca e retira o adjectivo da coisa, a subtileza da forma e precipita a verdade.
De um lado extrai a maça com sua divagação de maça.
Fabrica peixes mergulhados na própria labareda de peixes.
Porque o actor está como a maça. O actor é um peixe.
Sorri assim o actor contra a face de Deus. Ornamenta Deus com simplicidades silvestres. O actor que subtrai Deus de Deus, e dá velocidade aos lugares aéreos. Porque o actor é uma astronave que atravessa a distância de Deus.
Embrulha, desvela.
O actor diz uma palavra inaudível. Reduz a humanidade e o calor da terra à confusão dessa palavra. Recita o livro. Amplifica o livro. O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia. O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor. Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio que ramificou de um substantivo. E o substantivo retorna e gira, e o actor é um adjectivo. É um nome que provém ultimamente do nome. Nome que se murmura em si, e agita, e elouquece.
O actor é o grande nome cheio de holofotes. O nome que cega. Que sangra. Que é o sangue. Assim o actor levanta o corpo, enche o corpo com melodia, corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor, como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação. O actor transforma a própria acção da transformação.
Solidifica-se. Gasifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto, faz crescer o acto. O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base, com as suas tantas janelas, as ruas.
O actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor, como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela, acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama, vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça."

Herberto Hélder

Aula nº9

Trabalho sobre "Os Anões", a pares.
Nesta peça com dois personagens masculinos, era entregue uma sentença e correspondente contra sentença a cada par de actores como ponto de partida.
Inúmeras referencias a certas peças de mobiliário português.
Duas duplas experimentaram mesmo uma incursão ao absurdo à Pinter.
Primeira aula com Fátima Apolinário.

Pinta, da Pinta, Pinto, da Pinto

Segundo a Wikipedia na versão britânica, Harold Pinter usou o apelido Pinta, um apelido de origem portuguesa, raiz da qual Harold Pinter acreditava ser o seu nome derivado.
Usou também os apelidos da Pinta, Pinto, da Pinto nos primeiros escritos poeticos publicados.
A viúva de H.Pinter Antonia Fraser afiança no entanto que Harold Pinter descende da Europa de Leste.
Veja-se

domingo, 12 de abril de 2009

Personagens

As personagens de Pinter exprimem exactamente aquilo que lhes vem à mente e muitas vezes emerge directamente do inconsciente. Pode acontecer que isso nada tenha a ver com a acção ou com o que acaba de dizer a outra personagem. Para dizer a verdade, não há diálogo.As personagens de Pinter só se revelam aos poucos e de uma maneira incompleta: esse é o trabalho do actor.
Mervyn Jones

"As suas palavras não dizem o que dizem, dizem mais. O enigma é muito interessante porque está bem perto da verdade da vida."
Claude Régy àcerca de Harold Pinter

"O teatro de Harold Pinter revela um universo singular, cómico e aterrador, feito de sub-entendidos, mal-entendidos ou puros equívocos. Nele observa-se, como se fosse ao microscópio, personagens que vegetam confusamente, de quem quase nada se sabe e que, de repente, explode num confronto em que as palavras são armas mortais. Estamos no reino do falso para se atingir uma verdade que é ainda mais falsa. As perguntas que se colocam não são aquelas que nos vêm à cabeça e a resposta, ou a recusa de responder limita-se a aumentar o abismo da incompreensão. O pudor torna-se violência, o sorriso ameaça, o desejo impotência, a vitória desfaz-se."
Eric Kahane

Diálogos de pausas, Teatro de Silêncios

Pinter é daqueles autores com textos de tal dimensão que só nos resta nos colocarmos ao serviço daquelas palavras.
Comecei por propor à actriz Sofia Gonçalves, depois da gratificante experiência que foi “Os 5 Sentidos” e o período de 4 meses que se lhe seguiu, um curso de Expressão Dramática, mas que não seria um curso de Expressão Dramática qualquer, devia ser algo contendo uma força motriz especial. A ideia de lançamento de um curso de Teatro de Autor para poucos meses foi pois da Sofia Gonçalves. E foi a Sofia mais longe: propôs-me o nobelizado falecido na véspera de Natal.
Um Curso de Teatro de Autor, versando Harold Pinter (1930-2008)
Tarefa pesada, responsabilidade obrigatória, aceitei, recuei. Voltei a ligar-lhe para o arranque. Novos recuos. Novas aceitações. Uma planificação, e depois outra. Cada dia que passava em Janeiro, depois Fevereiro, os textos de silêncio parecia que pediam para ser representados.
Até 16 de Março, o grande dia de arranque desta jornada.
Este teatro que entrega ao Actor o decurso da situação, que o sugere na tensão de diálogos de pausas, declarações, e sempre : silêncios; já trouxe fascinantes e mágicos momentos, protagonizados pela dezena de alunos na sala 102 do Centro de Formação da Casa do Artista.

Domingo de Páscoa em família, em Alfragide.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Silêncio

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

(do Diário de Felgueiras), com a devida vénia a José Carlos Pereira

A morte chegou ao mundo das Letras neste Natal. Harold Pinter, prémio Nobel da Literatura em 2005, e considerado um dos expoentes máximos da dramaturgia inglesa, sucumbiu, hoje, após prolongada luta contra um cancro no esófago. Aquando da sessão solene da entrega do prémio, o discurso do escritor foi interrompido por sucessivas "falhas de som"(!)
Filho de um alfaiate judeu, Pinter era conhecido como defensor dos direitos humanos. Como tal, opôs-se à guerra do Iraque, que o levou a criticar duramente o então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o presidente americano, George W.Bush, no discurso de aceitação do Nobel.
Nos anos 80, Harold Pinter fez parte de uma delegação representativa da Nicarágua, à altura do então governo sandinista, nas negociações com os EUA, então governados por Ronald Reagan, que ameaçava invadir aquele país e patrocinava os “Contra” através de um esquema de financiamento que passava pela venda de armas ao Irão cujo dinheiro era revertido para os guerrilheiros anti-sandinistas, num escândalo que ficou conhecido por “Irão-Contras” Nesse importante discurso, Harold Pinter testemunha uma conversa entre um padre da Nicarágua e o diploma norte-americano. O relato do sacerdote é arrepiante: “Dirijo uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivíamos em paz. Há alguns meses uma força dos Contra atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o centro de saúde, o centro cultural. Violaram as enfermeiras e as professoras, assassinaram os médicos, da forma mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, peça que o governo dos EUA retire o seu apoio a esta revoltante actividade terrorista”.
Perceba-se bem que Harold Pinter, no seu notável humanismo, não defendia regimes; defendia os direitos humanos! A melhor homenagem que lhe podemos fazer é saborear o discurso de aceitação do prémio Nobel, em 2005. Um texto histórico, sem dúvida. Embora longo, não cansa lê-lo. Deve ser lido, aliás. Não o percam

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